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Poeminhos Cult

Poeminhos Cult

09
Jul20

FLASH

Lucas Luiz

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Missas são eventos aguardados na infância interiorana. Conquanto alguém recém saído da fralda dificilmente exale qualquer religiosidade. Mas passeios pelo centro da cidade tendem a acontecer com rareza. Por isso a necessidade de atos solenes para apresentação de grandes dons naturais como, por exemplo, chutar latinhas em praça pública.

O fenômeno funciona descomplicado há décadas. Crianças do lado de fora da igreja correndo desesperadamente como se o mundo fosse acabar. E pais do lado de dentro fingindo arrependimento pelo mesmo motivo.

Acontece, porém, dissidências bélicas quando reunidos muitos deles num único ambiente: qualquer gesto descamba para o conflito. Ainda mais em discussões de vida ou morte como “quem está no pega?”.

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Magricelas feito eu carregavam função específica — já inerente ao arquétipo — de bode expiatório. Canalizar a frustração dos rebentos maiores no próprio corpo com toda a delicadeza gerada através de socos e pontapés.

Contudo, havia certo distúrbio na força. Motivado pelo ódio (esse poder primevo a nos mover desde os tempos imemoriais) revidei, na cautela de escolher outro menor. A satisfação pessoal ruiu na primeira lágrima escorrida em seu rosto.

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Arquitetado em segundos o necessário plano de fuga — o plano infalível — dei passos. Acelerando-os mais e mais. Até voltar a correr. Correr, correr, correr. Tornando-me apenas um borrão indiscernível. Depois de cinco voltas completas pela igreja, julgando estar em segurança, estacionei. Ainda na primeira inspiração ofegante o dedo em riste pontou sobre meu rosto. A mãe do menino e um sermão de insultos bíblicos.

 

 

01
Jul20

SAGRADO

Lucas Luiz

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Aos nove anos nenhum dos grandes questionamentos da humanidade importava. Muito embora a proximidade da mudança de milênio deixasse visível certo pânico no ar. Dois mil e, atarracado à ele, o armagedon.

Por isso, o riso deveria ser sagrado. Era inconcebível para minha cabeça adultos desperdiçando-os em ocasiões frívolas, como numa roda de amigos onde ninguém estava a cair. Gargalhadas proferidas sem tombos no raio de visão são meros desperdícios. Uma criança carrega tal sabedoria. Há ligação intrínseca entre os músculos esborrachando-se ao chão e a boca fazendo o movimento de orelha a orelha.

Senti-me provedor do fogo: pessoas grandes desconheciam a premissa mais básica sobre existir. Observava-os em caráter de julgamento procurando sinais de lucidez. E nada. Sob as caudas das frases aleatórias surgiam eles, os sorrisos, sempre deslocados. Nada de trombadas, tropeções. Todos a ostentar equilíbrio.

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Curiosidade aguçada: o que havia de engraçado? Teria eu, tão observador, deixado escapar algo? Qualquer investigador de nove anos que se preze, tendo em mente os bons manuais de inquirição antes dos dez (normalmente aprendidos no Scooby-Doo); atenta-se aos detalhes, ao frívolo.

Arrastado por inúmeros lugares acorrentado aos adultos, eu observava suas roupas, traços, trejeitos. Até a tarde mais cinzenta de mil novecentos e noventa e nove, enquanto submerso na análise, tropeçar, por descuido, em meus cadarços e cair de cara no chão defronte com a plateia mais implacável existente: outras crianças.

Dedos apontados e zombarias histéricas.

Por um longo período não quis mais saber de risos. Nem de nada. Queria a chegada do réveillon. O mundo terminar soava menos assustador que conviver com a lembrança.

18
Jun20

AUGUSTIANDO

Lucas Luiz

SOLIDI.jpg
(Imagem: Solidão – Didier Fay-Keller – 1989)

I.
Alimento-a solidão, supro-a de
expectativas tantas.
Nenhuma pretensão senão
arrancar pela raiz
das ideias o amor,
o amor,
o amor essa
odisseia.

II.
Sei-me castigado pela musa,
com seu beijo lento de
querer insaciável.
Força-me a palavra
sempre inexata,
existência fracionada,
opção-última,
inefável.

III.
Somente aqui, deitado em verso,
faço de mim alguém merecedor
de afeto.
No rosto o beijo escarrado
do mundo — na palavra
um único afago
indiscreto.

12
Jun20

GATO ESCALDADO

Lucas Luiz

esconde-esconde.png

I.
Fui nascido para o razoável,
coisas imbecilizadas.
Pródigo tamanho nada:
invisível tapando o olho.
Simbiose pré-sibilada
– a poesia escolhe,
à poesia encolho.

II.
Vim à luz com paranças.
As mãos redecoradas de
amora a marcar o frêmito,
instante-folhagem.
Plantado de palavras
a colher o fruto sonho,
versus-imagem.

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